quinta-feira, 13 de julho de 2017

Na barbearia gourmetizada

Moro relativamente perto de uma universidade e todo começo de semestre acontece a mesma coisa: calouros recém-aprovados no vestibular tomam as ruas pedindo grana nos sinais e vendendo rifas, tudo com o intuito de juntar dinheiro e promover festas.

Festinhas universitárias regadas a muita paquera e azaração
No começo do mês passado estava andando rumo ao trabalho e fui cercado por cinco calouras. Elas queriam me vender rifas e usar meu suado dinheiro para financiar suas festinhas espúrias em que alguém sempre termina hospitalizado pra tomar glicose para não entrar em coma alcoólico.

Ostentei meu poderio econômico ao pagar dois reais em uma rifa e as jovens saíram do meu caminho.

Cheguei no trabalho, parei para prestar atenção na rifa e vi que eu estava concorrendo a cinco prêmios diferentes, sendo o melhor deles uma bicicleta, e o pior deles um voucher para fazer cabelo e barba de graça numa barbearia "gourmetizada".

Enfiei a rifa nas profundezas de uma gaveta e esqueci desse assunto, até que no fim do mês passado recebi uma ligação de um estranho que me deu a boa notícia: o número da minha rifa foi sorteado e eu ganhei o tal voucher da barbearia.

Essa é a maior sorte que tive em um sorteio desde que ganhei um CD do É o Tchan no Havaí em 1998, então fiquei levemente satisfeito por ter sido contemplado, mesmo que com o pior dos prêmios disponíveis.

Em 1998 ganhei esse CD. Em 2017 ganhei corte de cabelo e barba. A sorte está crescendo exponencialmente e em 2036 ganharei R$ 50,00 na raspadinha da lotérica.
Pra fazer bom uso do voucher, deixei o cabelo e barba crescerem o máximo que pude, pra chegar na barbearia com aparência do Tom Hanks naquele filme "O Náufrago".

Como eu queria chegar na barbearia
Essa é uma daquelas barbearias "gourmetizadas" que toda cidade grande tem, criadas para serem "espaços exclusivos para homens", um espaço masculino onde você pode beber cerveja artesanal ao som de blues enquanto folheia uma playboy, tudo meticulosamente planejado pra fazer o cliente se sentir especial.

É um lugar muito diferente da barbearia que eu frequento, que é um muquifo onde o dono cobra tão barato pelo corte de cabelo que ele precisa dirigir Uber na madrugada para conseguir equilibrar as contas.

E lá fui eu, pela primeira vez, rumo à barbearia gourmetizada
Cheguei lá e fui recepcionado por um cara de suspensórios e barba de lenhador, um típico hipster que expressa sua individualidade se vestindo igual a todos os outros hipsters.

Falei que ganhei um voucher na rifa e os demais hipsters que trabalhavam no recinto vieram me cumprimentar com um falso entusiasmo de doer o coração.

"Primeira vez aqui, bróder?", "Quer uma gelada?", "Senta aí, bróder, a gente já vai te atender! Quer a senha do Wifi?".

Sentei num sofá e, na falta de coisa melhor pra fazer, fiquei observando o ambiente.



A primeira coisa que me chamou a atenção, além do ambiente vintage, foi uma placa com o preço dos serviços. Corte de cabelo com tesoura + barba totalizavam R$ 100,00. Isso mesmo, amigos, 100 joesleys para cortar cabelo e barba. Ainda bem que eu tinha o voucher.

Depois disso prestei atenção na conversa entre os clientes e os hipsters que cortavam seus cabelos: "Corolla é melhor que Civic", "o segredo da boa cerveja artesanal está na acidez do lúpulo", "eu trabalho numa plataforma e chefio uma equipe de 80 homens". Só papo de homem de sucesso. 

Chegou minha vez de ser atendido e o mesmo hipster que me recepcionou passou a cortar meu cabelo.

"Curtiu o espaço, bróder?"

"Sim, legal, só o preço assustou um pouco".

"Bróder, sobre o preço... aqui tem todo um conceito, você trabalhou o dia todo, quer um lugar pra relaxar, você chega aqui, senta no sofá, toma uma gelada, ouve uma música, recebe um tratamento especial, joga conversa fora, é toda uma experiência, não é um salão comum igual esses que tem por aí, aqui tem esse lance da experiência".

A tal da experiência que supostamente justifica o preço dos salões gourmetizados para homens

Concordei com o cabeleireiro hipster em nome da diplomacia, afinal estava ganhando corte de cabelo e barba de graça, então achei mais sensato usufruir do serviço sem ficar contrariando o camarada.

Cabelo cortado e barba feita, me preparei para ir embora e o hipster perguntou se eu ia voltar no mês que vem para cortar de novo. Eu respondi que ia voltar assim que ganhasse outro voucher, ele riu achando que era piada, eu me despedi e fui embora.

Adeus para sempre, barbearia gourmetizada
Fui andando pra casa pensando nesse lance da experiência.

Toda cidade grande já tem as suas barbearias gourmetizadas para homens, o que é um forte indício de que muita gente quer sim viver a tal da experiência que esses locais oferecem.

Paga-se o dobro, talvez o triplo do preço, pra sentar num sofá estilizado em um ambiente vintage, comprar uma cerveja a preço extorsivo e ficar lá se sentindo mais másculo enquanto relaxa com os miguxos do clube do bolinha.

Gourmetizaram a barbearia para atender à demanda de homens que precisam se sentir especiais até mesmo na hora de cortar o cabelo.

Amigo, é só cabelo! Você chega, corta, paga e vai embora. Que carência é essa que a galera está sentindo pra pagar mais caro pra transformar algo tão simples numa "experiência masculina"?

Isso me parece apenas mais uma armadilha pra pegar dinheiro de trouxa. Algo não muito diferente de pipoca gourmet, Uber Select e outras coisas inventadas para fazer a rapaziada gastar uma grana a mais em algo que eles atingiriam o mesmo resultado final se tivessem pago mais barato, tudo isso só pra se sentir diferenciado, especial, nobre, refinado ou qualquer outro sentimento que eu não sei explicar qual é.

Aquele abraço! 

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Crônicas da Matrix Financeira: Vanessa, a advogada

No post "Crônicas da Matrix Financeira: Vanessa, a assessora" eu contei para vocês sobre uma jovem moça que conseguiu um cargo comissionado em um órgão público que lhe pagava uma bela remuneração entre R$ 7 e R$ 8 mil mensais para cumprir uma carga horária de 35 horas semanais.

Com muita pressa em mostrar ao mundo seu novo poder aquisitivo, Vanessa mergulhou de cabeça na inflação do padrão de vida e saiu da casa dos pais para morar sozinha, comprou um carro 0 Km, comprou dezenas de roupas caras exibidas com orgulho nas redes sociais com a hashtag #lookdodia, frequentou restaurantes caros para compartilhar no Instagram foto dos pratos que pedia, enfim, toda aquela mediocridade e necessidade de auto-afirmação que todos nós já conhecemos muito bem. 

O revés veio quando o cara que nomeou Vanessa para o cargo comissionado morreu e foi substituído por um outro cara, que imediatamente exonerou todos os comissionados indicados pelo falecido, inclusive ela.

Como cargo comissionado não tem direito trabalhista e Vanessa em momento algum achou que fazer uma reserva de emergência seria uma boa ideia, ela ficou completamente desamparada quando foi para o olho da rua, tendo que voltar a morar com os pais, que assumiram todas as despesas da filha, inclusive as parcelas do carro, gasolina, seguro, vida social etc.

Esse foi um breve resumo do post "Vanessa, a assessora" apenas para refrescar a memória, e agora podemos finamente falar sobre o post de hoje: 

Crônicas da Matrix Financeira: Vanessa, a advogada

Assim que foi pro olho da rua e viu sua vida de "jovem de sucesso" desmoronar, Vanessa voltou a morar com os pais e assumiu o rótulo de concurseira. 

Como eu tive a oportunidade de mencionar no post "Crianças de 30 anos", estudar para concurso é uma atividade válida, mas o que não falta por aí é vagabundo se autodenominando concurseiro para esconder da sociedade o fato de que não faz nada de produtivo o dia todo.

Vanessa estudando para concursos
Vanessa não precisou fingir por muito tempo que era concurseira, pois logo no começo de 2017 conseguiu um trabalho como advogada em um escritório de advocacia gigante, desses que tem centenas de advogados e cuida de milhares de processos defendendo empresas de telefonia. 

Esse trabalho não era tão "glorioso" quanto o cargo comissionado que ela outrora ocupou, pois a remuneração era baixa (menos de R$ 1.800,00/mês) e a carga horária era alta (44 horas semanais), algo bastante comum no super prostituído mundo da advocacia.

Nem por isso Vanessa perdeu a pose, e recheou seu Facebook com selfies dentro do carro a caminho do trabalho, selfies no escritório pela manhã sempre com um copo da Starbucks estrategicamente posicionado para mostrar ao mundo como ela é cosmopolita.

Dentro e fora das redes sociais, a imagem que Vanessa queria passar era de advogada de sucesso. Enchia o peito para dizer que era chefe de uma equipe, postava fotos para mostrar que trabalhava até tarde da noite, postava foto presenteando a "equipe" com chocolate para mostrar que era uma boa chefe e por aí vai.

Já que a vida de servidora pública do alto escalão não deu certo, Vanessa assumiu a identidade de business woman cosmopolita
Quem conhece os bastidores sabe bem que a vida que Vanessa projetava para os outros era uma mentira.

Seu salário era pífio, suas horas extras aconteciam contra sua vontade, a "equipe" que ela comandava consistia em um estagiário, o cargo de "chefe" que ela usava para se referir a si própria era puro delírio, e sua situação financeira era de semi-dependência dos pais (ela bancava gasolina, seguro do carro e vida social, enquanto os pais bancavam moradia, alimentação, plano de saúde, financiamento do carro e basicamente todo o resto).

Ainda assim, o importante para Vanessa era manter a pose de "pessoa que tem tudo sob o controle" e de "profissional insubstituível", então publicamente ela agia como se adorasse aquilo tudo.

O trabalho de escravogada durou até agora, e no começo da semana passada ela foi dispensada do escritório em que trabalhava, por algum motivo que eu não sei qual é.

Para agravar a situação, Vanessa foi dispensada sem direito a nenhuma verba trabalhista pois ela estava contratada como advogada associada, que é uma figura que consegue ter menos direito trabalhista que um boliviano em regime de semi-escravidão.

Com a súbita dispensa e sem dinheiro no bolso, Vanessa confessou para a prima dela (vulgo minha namorada) que tem uma dívida de R$ 14 mil no cartão de crédito, que ela vinha refinanciado no crédito rotativo pagando sempre o mínimo todo santo mês, e que agora ela está pagando parcelado.

Como Vanessa não queria que seus pais descobrissem que essa dívida existe, ela pediu dinheiro emprestado à minha namorada para que conseguisse continuar pagando as parcelas.

A Madruguete quis minha opinião sobre o assunto e eu fiz uma longa exposição que pode ser resumida em "não empresta senão vai dar merda", e felizmente ela me escutou, então provavelmente Vanessa vai acabar jogando mais essa despesa nas costas dos pais.

O curioso é que, mesmo demitida e tendo acabado de mendigar dinheiro emprestado para pagar uma dívida de 14 mil joesleys, ontem mesmo Vanessa orgulhosamente compartilhou para a sua prima que estava comprando roupas e, quando descobriu que havia um desconto de 10% para compras acima de R$ 200,00, levou uma bermuda a mais, alcançou os R$ 200,00 e obteve o desconto em questão.

Parabéns pela economia, campeã.

Vou esperar o tempo passar e quanto tiver mais assunto escreverei a parte 3 dessa história. Pelo andar da carruagem, não vejo um futuro dos mais brilhantes para essa menina, rs.

Aquele abraço!

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Sala 1: dois anos de vacância

Já contei essa história antes aqui no blog, então se você for leitor das antigas talvez se lembre.

Minha empresa alugava 3 salas comerciais, uma ao lado da outra, mais ou menos assim: 


Em junho de 2015, já com a crise no setor imobiliário comendo com gosto e placas de "aluga-se" brotando para todo o lado na paisagem urbana, a imobiliária que cuidava da sala 1 achou que seria uma boa ideia notificar minha empresa para que a gente desocupasse a sala em 30 dias, a não ser que concordássemos em reajustar o aluguel de R$ 800,00 para R$ 1.020,00.

Qual o critério para esse reajuste? Até hoje não sei. IGP-M certamente não foi. Acho que para reajustar a imobiliária utilizou o índice EAOIEFOQQ - "Eu Administro o Imóvel Então Faço o Que Quiser". 

Não concordamos com o reajuste e começamos a preparar a desocupação da sala 1, o que deu uma trabalheira do cão, especialmente com esse lance de mudar a porta de vidro de lugar.

Percebendo que a gente não ia ceder, a imobiliária se arrependeu de utilizar o índice EAOIEFOQQ e fez uma proposta de R$ 900,00/mês, dessa vez utilizando o índice EAOIEFMOMOQQ - "Eu Administro o Imóvel Então Faço Mais ou Menos o Que Quiser". 

Já estávamos com a desocupação em andamento então resolvemos ignorar essa nova proposta, até que a imobiliária ofereceu manter o aluguel da sala 1 sem nenhum reajuste, ou seja, pagaríamos os mesmos R$ 800,00/mês de aluguel que pagávamos antes, tudo com base no índice NDPADD - "Não Desocupa Pelo Amor de Deus".

Tarde demais. Ignoramos novamente e desocupamos a sala 1.
Adeus, sala 1
Passaram-se dois anos e a sala 1 jamais foi alugada novamente.

A sala fica permanentemente fechada e gerando prejuízo para a proprietária. Fazendo uma estimativa bem por alto mesmo, só de aluguel ela deixou de receber uns R$ 19 mil, e só de taxa condominial ela deve ter gasto mais de R$ 5 mil.



Há alguns meses atrás encontrei a proprietária da sala 1 em uma assembleia do prédio (eu voto com procuração dos proprietários das salas 2 e 3).

"Ain, Madruga, por que vocês desocuparam minha sala?", disse a proprietária.

Expliquei que desocupamos em razão do reajuste que a imobiliária tentou impor, completamente absurdo para aquele momento em que a vacância no prédio estava enorme e tinha neguinho alugando sala até por R$ 650,00/mês.

"Que reajuste?!", disse a proprietária da sala 1 com cara de susto.
A proprietária da sala 1 jurou pelas barbas do profeta que não sabia que a imobiliária tentou reajustar nosso aluguel, que não autorizou nada disso, que ela deveria ter sido consultada pela imobiliária, que nunca em sã consciência ela arriscaria perder um locatário de tantos anos dessa forma.

Ela estava realmente indignada, falando que ia processar a imobiliária que administra a sala 1, e de certa forma eu compreendo a indignação, já que a imobiliária fez uma tentativa desastrada de reajuste, perdeu o locatário e gerou prejuízo para a proprietária.

Mas que se dane, são águas passadas.


A novidade é que nessa semana a proprietária da sala 1 apareceu na minha empresa acompanhada de um advogado, e mais uma vez falou que pretende processar a imobiliária por ter dado causa ao fim da locação.

O advogado que acompanhava a proprietária explicou que pretende cobrar judicialmente da imobiliária os lucros cessantes, ou seja, quer que a justiça condene a imobiliária a pagar o valor correspondente ao período em que o imóvel ficou vazio quando poderia ter permanecido alugado para a minha empresa.

Enquanto escutava o advogado falando, uma pergunta pipocava em minha mente: E o que diabos eu tenho a ver com isso?
Foi aí que o advogado da proprietária perguntou se eu poderia colaborar com o processo, testemunhando a favor da proprietária, e repassando pra ele a notificação que a imobiliária nos enviou mandando desocupar caso não concordássemos com o reajuste.

Se tem algo que eu aprendi nessa vida é que não ganho absolutamente nada me metendo na briga dos outros. Aquela briga era entre a proprietária da sala 1 e a imobiliária que ela irresponsavelmente escolheu para administrar o imóvel dela, eu não tinha absolutamente nada a ver com aquilo, então falei pro advogado que preferia não me envolver.

O advogado fez cara de ânus e disse que ia me colocar como testemunha no processo de qualquer forma, e eu seria obrigado a comparecer em audiência e falar a verdade sob pena de cometer crime de falso testemunho blá blá blá.

Falei pro advogado pra ele fazer o que quiser, levantei, abri a porta e pedi que eles se retirassem. Ficou um climão desagradável no ar, eles saíram sem dizer nada e foram embora.

Depois que eles saíram, fiquei pensando na sucessão de merdas que nos levou àquele momento:

1) Certo dia alguém dentro da imobiliária acordou se achando o todo poderoso.
2) Isso fez minha empresa subitamente desocupar 1/3 do espaço físico.
3) Isso fez a proprietária do imóvel tomar um prejuízo de mais de vinte mil joesleys.
4) Isso fez a imobiliária não só perder uma cliente, como também ficar na mira de um processo judicial que eu sinceramente não sei quem vai ganhar (nem me importo).

Só consigo ver dois ganhadores nessa história: o advogado da proprietária da sala 1, que vai ganhar dinheiro pra atacar a imobiliária, e o advogado da imobiliária, que vai ganhar dinheiro para defender.

Nessas horas a gente entende por que o Dr. Honorários tinha aportes tão bons
Não sei qual lição tirar disso. A lição mais escancarada seria: escolha bem a imobiliária, e sempre fiscalize o trabalho dela por mais que você ache que escolheu a melhor imobiliária do universo.

Aquele abraço!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Crianças de 30 anos

Não tenho filhos nem planos de curto ou médio prazo de botar uma criança no mundo, mas, após ler um post do colega Investir para Viver, ando me perguntando o que eu tenho que fazer, caso um dia eu vire pai, para educar Madruga Júnior de uma forma que ele não se transforme num completo paspalho, tal qual algumas pessoas que eu conheço. 

Refiro-me especificamente a alguns ex-colegas de universidade que estão com 30 anos de idade e nunca fizeram absolutamente nada de útil na vida desde que terminaram a graduação, se encaixando já há muitos anos no conceito de NEET.

Exemplos: 

Gabriel tem 31 anos e, após concluir a graduação, nunca correu atrás de nenhum emprego, estando até a presente data a depender financeiramente dos pais, que bancam a habitação, o carro, as viagens, a vida social e as extravagâncias do filhinho (PlayStation 4, aeromodelos, smart-relógio etc).

Renato concluiu a graduação sem conseguir seu lugar ao sol no mercado de trabalho. Ele passou anos a fio sem trabalhar, sempre me dizendo que estava estudando para concursos (estudar para concurso é uma atividade legítima, mas também é a desculpa oficial de muita gente desocupada). Passaram-se oito anos desde a formatura e pelo que sei Renato nunca chegou nem perto de uma aprovação. 

Esses foram apenas dois exemplos, mas eu tô pra dizer pra vocês que conheço pelo menos mais umas 5 pessoas que passaram dos 30 anos e, por mais que tentem esconder isso, não fazem absolutamente nada na vida a não ser sugar o dinheiro dos progenitores.

E olha que estou falando apenas de NEETs! Se for contar também a galera com mais de 30 que trabalha mas ainda depende de ajuda dos pais pra se sustentar, esse número aumenta vertiginosamente.  

Bebês gigantes
Por mais que Madruga Júnior ainda não exista, e pra ser sincero eu nem decidi ainda se quero ter filhos, não consigo deixar de me perguntar o que eu tenho que fazer para impedir que minha cria se torne uma dessas crianças de 30 anos que eu conheço, que simplesmente não se deram conta que a idade chegou e que viver da mesma forma que viviam quando tinham 12 anos é um constrangimento.

Tô longe de ser um "case de sucesso" do sujeito de 30 anos que está com a vida resolvida, mas pelo menos posso me orgulhar de não parasitar ninguém, cumprir com todas as minhas obrigações e ainda sobrar uma bufunfa pra aportar no fim do mês. 

Fica a pergunta no ar: como criar adequadamente um filho?

Não tenho experiência nenhuma com criação de filho, mas existem algumas coisas que o meu pai fez comigo e com meu irmão que definitivamente considero como acertos:

1) Dar a real desde cedo

Desde que eu era bem novo e não tinha nenhuma preocupação na vida, meu pai sempre soltava comentários do tipo "não tenho dinheiro pra pagar universidade particular, você vai ter que passar em pública se quiser um bom emprego" ou "um dia você vai ter que se virar sozinho, não vai ter ninguém pra pagar suas contas, fazer comida, lavar roupa". 

Esse papo em nada atrapalhou minha infância e plantou na minha cabeça a ideia de que um dia eu iria ter que me virar, e se não me virasse estaria ferrado. 

Acredito que isso me deu um bom senso de responsabilidade, coisa que as crianças de 30 anos não têm até hoje, e contribuiu pra formação do caráter. 

2) Palmadas

As punições disciplinares variavam de acordo com a gravidade do ato cometido. Atos de baixa gravidade eram punidos com esporro, de média gravidade com castigo, e de alta gravidade com a boa e velha agressão física.

Punição final
Acredito que palmada é instrumento pedagógico e deve sim ser usada em casos graves. Não consigo imaginar uma criança xingando o pai ou a mãe e sendo punido com "vai ficar sem internet!!". Esse tipo de desproporcionalidade entre ofensa e punição cria crianças de 30 anos. 

3) Carro de presente?!

Tendo crescido num ambiente de classe média, lembro-me de uma galera mais velha festejando os 18 anos. Em algum momento a festa era interrompida para dar o presente pro aniversariante. Iam todos para o meio da rua e...

Tcharam!!!!!
Lá estava um carro, algumas vezes com essa faixa escrota, outras não. 

Acredito que, se você dá pro seu filho um trambolho que custa milhares de reais, você acaba dando pra ele também um belo exemplo de como o mundo não funciona. 

Lá está o moleque, com apenas 18 anos de idade, no conforto de um passivo ambulante que ele não teria a menor condição de pagar sozinho, com gasolina e manutenção que ele provavelmente também não banca.

Que lição isso passa para um moleque ainda em formação? Pra mim isso só serve para gravar no subconsciente da pessoa que talvez a vida não seja tão difícil assim, além de colocá-la numa enorme zona de conforto que não deveria existir nessa fase de recém-adquirida maioridade.

Sei que dar um carro de presente não significa que você vai transformar seu filho numa criança de 30 anos, o processo educacional leva décadas e é muito mais complexo que isso, mas também não consigo enxergar como uma simples coincidência o fato de que os 7 NEETs que me vieram em mente enquanto eu escrevo esse post ganharam carro de presente dos pais, rs.

Como eu fiz questão de frisar desde o começo do post, eu não tenho experiência alguma com criação de filho. O que eu quis compartilhar no post de hoje são coisas que meu pai botou em prática e acho que de uma forma ou de outra me ajudaram, e que pretendo pôr em prática também caso Madruga Júnior venha ao mundo.

E vocês, quantos NEETs conhecem? Têm alguma boa dica de criação de filhos para compartilhar? Alguma coisa que ajudou a formar o seu caráter?

Aquele abraço!
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